sábado, 18 de setembro de 2010

Estou a deriva.

E com saudades.

Sem o outro.

O cheiro dele era tão bom nas mãos dela quando ela ia deitar, sem ele. O cheiro dela era tão bom nas mãos dele quando ele ia deitar, sem ela. O corpo dela se amoldava tão bem ao dele, quando dançavam. Ele gostava quando ela passava óleo nas suas costas. Ela gostava quando, depois de muito tempo calada, ele pegava no seu queixo perguntando ― o que foi, guria? Ele gostava quando ela dizia sabe, nunca tive um papo com outro cara assim que nem tenho com você. Ela gostava quando ele dizia gozado, você parece uma pessoa que eu conheço há muito tempo. E de quando ele falava calma, você tá tensa, vem cá, e a abraçava e a fazia deitar a cabeça no ombro dele para olhar longe, no horizonte do mar, até que tudo passasse, e tudo passava assim desse jeito. Ele gostava tanto quando ela passava as mãos nos cabelos da nuca dele, aqueles meio crespos, e dizia bobo, você não passa de um menino bobo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sozinho.

Entramos no mundo sozinhos e saímos dele sozinhos. E tudo que acontece entre isso? Devemos a nós mesmos encontrar uma companhia. Precisamos de ajuda. Precisamos de apoio. Caso contrário, estamos nessa sozinhos. Estranhos. Desligados um dos outros. E nós nos esquecemos o quanto conectados estamos. Então, ao invés disso, escolhemos o amor. Escolhemos a vida. E por um momento nos sentimos um pouco menos sozinhos.

Lar.

Outra pessoa: Você vai mesmo embora?
M: Vou.
Outra pessoa: Mas aqui está a sua família, os seus amigos, o seu lar...
M: Defina lar.

Durante todo esse tempo



eu tenho pedido desculpas. Mas por que eu deveria pedir desculpas por erros que foram seus?

Auto-destrutivo.

Tudo isso me pertubava porque eu pensara, até então que, de certa forma toda a minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco um albúm de retratos. Carregada centenas de fotografias amarelecidas em páginas que folheava detidamente durante a insônia e dentro dos ônibus olhando pelas janelas e nos elevadores dos edifícios altos e em todos os lugares onde, de repente, ficava sozinha comigo mesmo. Virava as páginas lentamente, há muito tempo antes e não me atemorizava pensar que muito tempo depois estaria da mesma forma de mãos dadas com um outro eu amortecido – da mesma forma – revendo antigas fotografias. Mas eu não podia, eu não podia mas não devia, ou podia mas não queria, ou não sabia mas como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar. Mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto-destrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Você indo embora.

Eu parada na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então desamparada entre cinzeiros cheios e garrafas vazias. Você indo embora. Eu indecisa entre beber um pouco mais ou lavar copos, bater sofás, guardar discos, mastigar algum verso, adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar, partir, morrer, sonhar quem sabe, talvez. Você indo embora. Acordar na manhã seguinte com gosto de madeira velha na boca: mais frustração que ressaca, desgosto generalizado que aspirina alguma cura. Tocaria o telefone? Você indo embora, fotograma repetido. Na montagem, intercalar. 
Você indo embora. Pegar o mesmo caminho. Pagar a conta atrasada. Devolver os filmes. Comer, andar, falar. Existir. Você indo embora. Você indo embora.